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DADOS · PESQUISA · ECONOMIA

Por que a inadimplência cresce mesmo com o emprego em alta?

Há alguma coisa aparentemente fora do lugar nos números brasileiros.

O mercado de trabalho está aquecido.

No trimestre encerrado em junho, o Brasil tinha 103,1 milhões de pessoas ocupadas. A taxa de desemprego estava em 5,4%, a menor para o período na série histórica, e o rendimento médio real do trabalho chegou a R$ 3.738.

Seria razoável imaginar que um cenário assim produzisse algum alívio consistente na inadimplência.

Não é o que está acontecendo.

Em julho, 83,9 milhões de brasileiros estavam negativados no indicador da Serasa.

É o maior número de toda a série histórica, depois de 19 meses consecutivos de crescimento.

São aproximadamente 348 milhões de dívidas, somando R$ 586 bilhões.

Na métrica da Serasa, 51,04% da população adulta aparece em situação de inadimplência.

83,9 MINEGATIVADOS
103,1 MIOCUPADOS
21,1%ÁGUA · LUZ · GÁS
53%NÃO CONSEGUEM COBRIR TODAS AS DESPESAS

Então talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

Em vez de perguntar apenas por que tanta gente está sem pagar suas dívidas, deveríamos perguntar:

como tanta gente continua inadimplente mesmo trabalhando?

Estar empregado já não responde à pergunta

Durante muito tempo, uma explicação intuitiva para a inadimplência era a ausência de renda.

Perdeu o emprego.

Perdeu a renda.

Deixou de pagar.

Essa relação continua existindo, evidentemente.

Mas ela já não parece suficiente para explicar o tamanho do problema brasileiro.

Temos um mercado de trabalho com desemprego muito baixo e, simultaneamente, recorde de negativação.

Isso não significa que o emprego esteja causando inadimplência.

Significa algo mais simples e mais importante:

ter alguma renda não é a mesma coisa que ter capacidade de pagamento.

Uma pesquisa divulgada pela Serasa Experian em 18 de agosto ajuda a enxergar essa diferença.

53% dos trabalhadores entrevistados chegam ao fim do mês sem dinheiro suficiente para pagar todas as despesas.

Entre aqueles que não conseguem fechar o mês, 78% apontaram alimentação entre os gastos que mais pressionam a renda.

Água, luz e gás foram citados por 72%.

Talvez essa seja uma das informações mais importantes para compreender a inadimplência brasileira atual.

O problema não é apenas ter renda.

É o que sobra depois que a renda encontra a vida real.

Antes da dívida vem a geladeira

Existe certa abstração quando falamos em “capacidade de pagamento”.

Para uma família, porém, essa capacidade é decidida todos os meses de maneira muito concreta.

Comida.

Luz.

Água.

Gás.

Aluguel.

Transporte.

Remédio.

Escola.

E depois todas as obrigações financeiras acumuladas ao longo do tempo.

A expressão “priorizar despesas” parece quase uma escolha financeira sofisticada.

Na prática, muitas vezes não é.

Antes da dívida vem a geladeira.

E não necessariamente porque alguém decidiu que cumprir uma obrigação deixou de ser importante.

Existe uma hierarquia inevitável quando o dinheiro não é suficiente para tudo.

Esse ponto aparece também na composição das dívidas negativadas.

Em julho, bancos e cartões de crédito representavam 27,2% das dívidas registradas pela Serasa.

Logo depois aparecem as chamadas utilities — contas básicas como água, luz e gás — com impressionantes 21,1%.

É aproximadamente uma em cada cinco dívidas.

Não estamos falando apenas de consumo discricionário.

Estamos falando também de contas associadas ao funcionamento básico de uma casa.

Quando metade da população deixa de ser exceção

Há momentos em que uma estatística muda de natureza.

Quando um fenômeno atinge uma parcela relativamente pequena da população, é fácil tratá-lo como exceção.

Quando um indicador de inadimplência alcança mais da metade dos adultos, talvez precisemos rever a categoria.

Não estou dizendo que a inadimplência deva ser normalizada ou considerada desejável.

Estou dizendo algo diferente.

Talvez a negativação esteja deixando de ser um episódio excepcional para se tornar parte estrutural da vida financeira brasileira.

Há alguns anos, “estar com o nome sujo” carregava uma ideia muito clara de excepcionalidade.

Era um problema que precisava ser resolvido para que a vida financeira “voltasse ao normal”.

Mas qual é o significado de normalidade quando o indicador passa de 51% da população adulta?

A expressão “novo normal” pode parecer exagerada.

Os números começam a torná-la uma pergunta legítima.

E o dinheiro continua caro

Existe ainda outro personagem nessa história.

O custo do dinheiro.

Em 5 de agosto, o Banco Central reduziu a Selic para 14% ao ano.

É uma redução.

Mas 14% continua representando uma política monetária bastante restritiva. O próprio Copom descreveu o mercado de trabalho como aquecido e afirmou que o cenário ainda exige cautela.

E a taxa básica é apenas parte da história.

O crédito efetivamente acessado pelas famílias incorpora spreads, risco, prazo e características próprias.

Quando o dinheiro permanece caro, dívidas anteriores tornam-se mais difíceis de carregar e a renda corrente precisa disputar espaço com obrigações contraídas no passado.

É possível trabalhar.

É possível receber salário.

E ainda assim não conseguir reorganizar a vida financeira.

Há uma forma simples de dizer isso:

a renda paga o presente. A dívida também cobra o passado.

E os dois chegam à mesma conta bancária.

O problema também aparece nas empresas

O estresse financeiro não está restrito às famílias.

Em 2025, 2.466 empresas estiveram envolvidas em processos de recuperação judicial, alta de 13% e maior nível da série atualizada da Serasa Experian.

No primeiro trimestre de 2026, somente no agronegócio, foram 474 pedidos de recuperação judicial, 21,9% acima do mesmo período de 2025.

Uma família negativada e uma empresa em recuperação judicial são fenômenos econômicos e jurídicos completamente diferentes.

Não devemos misturá-los.

Mas ambos mostram um ambiente em que custo financeiro, caixa e capacidade de cumprimento das obrigações passaram a ocupar o centro das decisões.

Então o que significa recuperar crédito?

É aqui que a discussão deixa de ser apenas macroeconômica e passa a ser operacional.

Se uma parcela relevante dos inadimplentes possui renda, mas essa renda está sendo disputada por alimentação, moradia, serviços essenciais, transporte e obrigações anteriores, insistir apenas em mais pressão por pagamento parece uma resposta incompleta.

Podemos enviar mais mensagens.

Fazer mais ligações.

Criar mais réguas.

Conceder um desconto maior.

Gerar um acordo.

Mas existe uma pergunta que deveria vir antes de comemorarmos:

esse acordo cabe?

Porque acordo não é recuperação.

Aceite não é pagamento.

E promessa de pagamento não é dinheiro no caixa.

Um acordo impossível não é recuperação

Imagine um consumidor que aceita uma parcela porque é a única condição disponível.

Naquele instante, produzimos uma conversão.

A métrica sobe.

A campanha funcionou.

O acordo foi fechado.

Trinta dias depois, porém, aquela pessoa precisa escolher entre a parcela, alimentação, transporte e energia.

O acordo quebra.

O que exatamente conseguimos recuperar?

Talvez tenhamos apenas deslocado a inadimplência algumas semanas para a frente.

Por isso existe uma frase que considero importante:

um acordo impossível não é recuperação. É inadimplência adiada.

Isso muda bastante a forma como deveríamos medir uma operação.

O objetivo não pode ser apenas maximizar acordos.

Precisamos maximizar acordos sustentáveis que efetivamente chegam ao caixa.

O funil de esforço não pode esconder o funil de resultado

No OrqOS, tenho insistido em uma distinção entre dois funis.

O funil de esforço mostra tudo aquilo que a operação fez.

Contatos.

Tentativas.

Mensagens.

Canais.

Propostas.

Descontos.

Acordos.

O funil de resultado responde uma pergunta diferente:

quanto desse esforço virou recuperação real?

Uma operação pode enviar cem mensagens, conceder um desconto agressivo e obter muitos acordos.

Vista pelo primeiro funil, ela parece extremamente eficiente.

Se grande parte desses acordos quebra posteriormente, a conclusão é outra.

O resultado econômico está depois do aceite.

Essa diferença se torna ainda mais importante quando a renda disponível das famílias está pressionada por despesas essenciais.

Não basta encontrar a condição que a pessoa aceita.

Precisamos tentar encontrar a condição que ela consegue cumprir.

Fair recovery não é benevolência

Essa discussão pode ser confundida com uma visão excessivamente complacente da recuperação de crédito.

Não é.

O credor precisa recuperar.

Capital possui custo.

Inadimplência produz perda.

Empresas dependem de fluxo de caixa.

O argumento é justamente econômico.

Um acordo insustentável não interessa ao devedor.

Mas também não deveria interessar ao credor.

Ele produz trabalho operacional.

Consome canais.

Gera documentação.

Movimenta sistemas.

Cria expectativa de receita.

E quebra.

Fair recovery, portanto, não significa simplesmente conceder descontos maiores ou exigir menos.

Significa tentar encontrar a melhor combinação entre:

capacidade de pagamento, política do credor, probabilidade de cumprimento e recuperação efetiva.

Isso é muito diferente de pressionar até obter um “sim”.

Se a renda está fragmentada, talvez a parcela também precise ser

Existe uma consequência prática desse diagnóstico que venho estudando há algum tempo.

Se o problema de uma parcela relevante dos inadimplentes não é ausência absoluta de renda, mas uma renda insuficiente sendo disputada por várias obrigações essenciais, talvez a lógica tradicional de parcelamento também precise ser revista.

É daí que nasce minha tese das microparcelas.

Normalmente começamos uma negociação perguntando:

quanto precisamos dividir para que a prestação fique menor?

Eu inverteria essa lógica.

A pergunta deveria ser:

qual é o menor compromisso financeiro que esta pessoa consegue incorporar de maneira sustentável à própria rotina?

Pode parecer apenas uma diferença de valor.

Não é.

Uma parcela de R$ 300 e uma parcela de R$ 30 competem de maneiras completamente diferentes com alimentação, transporte, energia e todas as pequenas decisões financeiras tomadas durante um mês.

A microparcela não deveria ser entendida apenas como “parcelar mais vezes”.

Ela parte de outra unidade de análise:

a capacidade real de pagamento.

Não defendo que toda dívida deva virar microparcela.

Nem que qualquer condição seja economicamente racional para o credor.

A política continua sendo do credor.

O custo da operação continua existindo.

O prazo importa.

O risco importa.

Mas, quando existe alguma capacidade de pagamento — ainda que pequena — talvez seja melhor capturá-la de forma sustentável do que produzir uma parcela maior que gera um acordo hoje e uma quebra amanhã.

Uma microparcela paga vale mais do que uma grande parcela prometida.

Há também uma dimensão cognitiva

É aqui que minha tese vai além da matemática da parcela.

Uma dívida grande pode se tornar abstrata.

Para alguém com orçamento já comprometido, milhares de reais podem parecer um problema sem solução.

Uma obrigação pequena, previsível e acompanhável cria outra experiência.

Pagar.

Registrar.

Ver o saldo diminuir.

Cumprir novamente.

Perceber progresso.

Minha hipótese é que uma jornada de microparcelas bem desenhada pode também funcionar como uma forma prática de educação financeira incorporada à experiência de pagamento.

Não uma aula.

Não uma cartilha dizendo como alguém deveria administrar o próprio dinheiro.

Mas uma experiência na qual a pessoa enxerga compromisso, consequência, saldo, prazo e progresso.

A dívida deixa de ser apenas um número distante e passa a ter um caminho.

Esse efeito precisa ser medido.

Não estou apresentando isso como um fato estabelecido.

É uma tese que merece ser testada.

Mas é exatamente esse tipo de coisa que a tecnologia hoje nos permite observar.

Quem começa a pagar?

Quem mantém o pagamento?

Em que valor?

Em qual frequência?

Qual plano quebra?

Qual sobrevive?

Qual comportamento muda ao longo do percurso?

O aprendizado não deveria vir apenas da negociação.

Deveria vir do comportamento real de pagamento.

Talvez tenhamos de atualizar nossa ideia de inadimplência

Os números atuais não descrevem uma pequena parcela da população vivendo uma exceção financeira.

Descrevem 83,9 milhões de pessoas.

Ao mesmo tempo, o Brasil possui mais de 103 milhões de pessoas trabalhando.

E mais da metade dos trabalhadores ouvidos pela pesquisa da Serasa Experian afirma não ter dinheiro suficiente para pagar todas as despesas ao fim do mês.

Essa combinação deveria nos fazer pensar.

Talvez uma parte relevante da inadimplência brasileira contemporânea não seja apenas um problema de pessoas sem renda.

Talvez seja cada vez mais um problema de:

renda insuficiente diante de múltiplas obrigações concorrentes.

Essa diferença é enorme.

Porque, se o diagnóstico muda, a recuperação também deveria mudar.

Quando o inadimplente não possui renda alguma, existe um problema.

Quando possui renda, mas precisa escolher todos os meses qual obrigação conseguirá pagar, existe outro.

A tecnologia já nos permite tratar essas duas situações de maneiras diferentes.

O erro seria insistirmos em operar como se fossem a mesma coisa.

O novo normal?

Não gosto particularmente da expressão “novo normal”.

Ela costuma aparecer quando ainda não entendemos direito o que mudou.

Mas talvez aqui funcione como provocação.

83,9 milhões de negativados.

51% da população adulta no indicador.

19 meses consecutivos de crescimento.

21,1% das dívidas em água, luz e gás.

Selic em 14%.

53% dos trabalhadores sem dinheiro suficiente para todas as despesas.

Talvez o maior erro da indústria de recuperação seja continuar tratando a inadimplência apenas como uma anomalia individual quando os números começam a mostrar um fenômeno de dimensão estrutural.

E, se isso estiver correto, a pergunta para quem trabalha com crédito já não deveria ser apenas:

como fazer mais pessoas pagarem?

Deveria ser também:

qual é o desenho de pagamento que tem chance real de sobreviver à próxima conta do supermercado, da luz e do gás?

Porque o indicador final de recuperação não é o “sim”.

Não é o acordo.

Não é a promessa.

É o dinheiro que efetivamente voltou para o caixa.

Charles Duek

Fontes e metodologia

Os dados factuais são atribuídos às publicações primárias abaixo. As interpretações sobre capacidade de pagamento, recuperação sustentável e microparcelas são teses do autor e do OrqOS; a dimensão cognitiva das microparcelas é apresentada como hipótese a ser medida.